Museu Magüta: História dos Ticuna

O Museu Magüta foi criado em Benjamin Constant no ano de 1990, mas só foi oficialmente inaugurado em 1994. A iniciativa de criação foi dos próprios caciques Ticuna, que queriam apresentar sua cultura à população local como uma forma de diminuição do preconceito com os indígenas.

Não sei o quanto avançaram nessa diminuição do preconceito ao longo desses anos. Ao perguntar a um benjaminense sobre o conteúdo do museu, tive como resposta:  é coisa de índio.

O contexto histórico da formação do museu revela muito sobre essa luta contra a descriminação. Na época, os Ticuna lutavam pela defesa e garantia de seus territórios e, ao mesmo tempo, reivindicavam o reconhecimento como um grupo indígena brasileiro. A criação do museu veio então para dar armas a essa luta política. Tentaram considerar os Ticuna como caboclos amazônicos (categoria mais próxima da possível idéia de ‘branco’). Dessa forma, políticos, madeireiros e latifundiários com apoio da população benjaminense, fizeram manifestações de hostilidade e ridicularização dos Ticuna, na tentativa de não garantir seu território e seu reconhecimento histórico e cultural como grupo indígena legitimamente brasileiro.

Vencendo o preconceito, com ajuda da imprensa que denunciou tal fato, os caciques Ticuna inauguraram o museu. Tornou-se de grande importância, por ser o primeiro museu indígena brasileiro. Reúne valiosas coleções de cultura material do povo Tikuna, delineada pelos próprios indígenas, e uma biblioteca que abriga toda a documentação histórica produzida sobre este povo e a região do Alto Solimões. Seu acervo é valioso para pesquisadores, estudantes, além de atrair turistas para a região.

Todo o museu foi projetado, organizado e mantido por ticunas. Quando fiz a visita, fui atendida por um ticuna que, apesar de falar bem o português, tinha o sotaque bem carregado. Quando disse o motivo da minha ida a Benjamin ele me disse: Já que vc é professora, poderia me explicar uma palavra do português que eu não consigo entender? O que é SOCIAL?

Achei interesssantíssimo um índio me perguntar isso e, principalmente um ticuna que passou por toda essa luta contra discriminação de seu povo, por espaço e valorização. Luta contra a sociedade! Como explicar uma palavra tão abstrata? Social, sociedade, relações… o velho ticuna não fez cara de quem entendeu minha explicação, mas a pergunta dele me fez refletir muito a respeito disso.

No museu com cara de casa que emprestou seu espaço, havia 4 salas com exposições e uma biblioteca anexa. Começando pelas lendas e crenças acerca do surgimento dos ticunas, encartes de papéis contam a história e quadros pintados representam visualmente. Os ticuna são descendentes do grupo indígena Magüta. Os deuses Yoi e I’pi, nascidos do joelho de Ngutapa, foram os criadores do grupo Maguta. Um dia Yoi estava pescando e ao usar frutas como iscas, percebeu que podia pescar gente. (Magüta quer dizer ” tirar alguma coisa da água”).

Os Ticuna são organizados em nações. Uma nação com nomes de aves (mutum, arara, maguari, etc), outra nação com nome de plantas e animais (buriti, onça, jenipapo, saúva, etc). Foram criadas para organizar os casamentos ticuna. Um ticuna da nação das aves, só pode se casar com uma índia da nação das plantas e animais. Cada nação possui uma pintura facial diferente que os identifica. Não consegui tirar foto do quadro que mostrava a pintura facial de cada nação. É muito interessante!

No museu explica-se como é feito a pintura de remos, a construção de instrumentos musicais usados em festas importantes, a confecção do tururi e como ocorre o ritual da Festa da Moça Nova.

A festa da Moça Nova, ou da Worecu, é um ritual de iniciação pubertária. Uma passagem da infância para a vida adulta. Após a primeira menstruação, a moça entra em reclusão e só tem contato com a mãe e tias paternas. É colocada numa estrutura de mosquiteiro, chamada turi. A menina ficará dentro do turi por 3 meses, tecendo fios de tucum e bolsas. Enquanto isso a família cuidará dos preparativos da festa, que durará 3 dias. Cantam, dançam, vestem suas máscaras e tocam seus instrumentos sagrados. No segundo dia de festa, a menina terá seus cabelos arrancados pelas mais velhas da nação. Enquanto arrancam, cantam e dão conselhos à ela. A partir deste momento, ela será uma mulher, deverá obedecer seus pais, exercer atividades mais importantes na tribo e principalmente comprometer-se em arranjar um casamento.

Antes de sair do turi, a menina terá seu corpo pintado com tinta preta e vermelha até o pescoço. Colares e cocares a enfeitarão para finalmente participar de sua festa.

 

Máscaras e fantasias usadas em rituais. São feitas de tururi

                 

Máscra e outros objetos usados em rituais

 

Representação da Moça dentro do turi

O mosquiteiro, TURI, com pinturas da nação da Moça


O ticuna do museu ainda me explicou pacientemente como é feito o tururi. Na verdade, tururi é o nome da árvore da qual é retirada sua entrecasca. Essa casca é batida com pedras e madeira até ficar na espessura desejada. Secará ao sol e em seguida será lavada nos igarapés. Todo esse processo tem como objetivo, deixar a casca do tururi parecida com um tecido. Assim que estiver pronta, receberá pinturas de urucum e tinta de jenipapo e servirá para confeccionar fantasias, roupas, máscaras, instrumentos, cobertores e o que mais for necessário. Em Manaus, o termo tururi é conhecido como o abadá da festa do Boi Manaus, não é mesmo? Agora entendi o porquê deste termo.

 

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